Portas Enganosas

Não são muitas as portas da verdade. Várias se abrem e apresentam a mentira. Outras nos deixam, por algum tempo, a aparência de termos encontrado o que buscávamos. Incontáveis são as portas e maior o número de decepções.
Mais experiente talvez que o leitor, posso apontar os sinais característicos das portas enganosas: o luxo dos orçamentos, os títulos espirituais que se impuseram a teu caminho, as taxas e valores obrigatórios para as lições da eternidade, o prestígio aos poderosos do mundo e a arrogância de proprietários do Mistério. Muitas portas assim foram encontradas para, de início, seduzir ou logo afastar-te, felizmente, do engano e da tirania, das trevas.
Quando, porém, encontrares a porta que te mostre a simplicidade e o desprendimento, entra e espera. Certamente sentirás o perfume das flores da espiritualidade e ouvirás o cântico das aves do céu.
Se, porém, retardar o encontro da simplicidade e do desprendimento, não batas inutilmente em todas as portas que encontrares. Mergulha em ti mesmo – e colherás, na presença íntima de teu ser, a chave da certeza que abre a porta da Paz e da Sabedoria Divina.
Luiz Goulart

Pensamento, Palavra, Ação

Buscando a filosofia interna da paz, recordamos que a pacificação em nós toma um tríplice aspecto que nos ajuda muito a viver: o bom pensamento, a boa palavra e a boa ação. Quando estes três pontos não estão em nós bem equilibrados, não estamos em paz.
É indispensável, em nosso íntimo, o cultivo de pensamentos iluminados pelo amor. Mesmo que às vezes tenhamos uma discussão com alguém, ao nos despedirmos devemos transmitir um pensamento tocado de Cristo. Este hábito faz com que nunca o ódio esteja conosco.
Em seguida, vamos equilibrar o pensamento com a palavra, pois não há nenhuma palavra iluminada que saia de um pensamento em trevas. No exercício da palavra, descobrimos o quanto é útil a ponderação. Se é um momento alegre e feliz, talvez as palavras não precisem ser tão vigiadas; mas quando surgem os problemas, uma palavra em falso nos leva a um abismo cruel. Devemos fazer tudo, portanto, para não deixar que a palavra nos tire a nossa paz.
Examinando este problema em mim, vi que de fato nos momentos graves não devemos falar e, segundo um instrutor oriental, o mais interessante quando somos obrigados a responder a um antagonista, é pedir a ele algumas horas; mas se o problema é muito grave, pedir-lhe alguns dias, e se for demasiadamente grave, pedir-lhe que tenha paciência de nos esperar um ano ou dois, para podermos dar uma resposta. Em geral respondemos rápido demais, tão rápido que sempre nos arrependemos, e assim a paz vê-se comprometida.
Do mesmo modo que a palavra, as atitudes estão diretamente ligadas ao teor de nosso pensamento. Não há um gesto que não seja a retratação de um estado emocional nosso, de equilíbrio ou desequilíbrio. Assim o pensamento, a palavra e a ação conjugam esforços, dentro da inteligência, para manter a criatura em paz consigo mesma.
Luiz Goulart

Olhar em Profundidade

Desenho de Luiz Goulart

NO ESPELHO, A ILUSÃO
Quando você se vê no espelho, o que você percebe? Uma imagem que precisa de retoques, nem sempre se sente satisfeito com o que vê. Sim. Isso é porque você está olhando para sua face mutável, aparente.
Essa é a imagem que todos veem em você. E que você vê em todos os seus semelhantes. Isso nos faz perder muito tempo tentando melhorar as aparências. Mas quando deixamos em segundo plano essa faixa de valores que nos perturba, educando nosso olhar na captação de uma essência só percebida por quem se dedica a enxergar além das aparências, tudo muda para melhor em nossa vida.
A VIRTUDE OCULTA
Encontramos apoio nestas palavras das Epístolas de Sêneca, filósofo estoico nascido na Espanha e que viveu e criou raízes em Roma: “Assim como a visão (física) pode ser aguçada e desobstruída por certas drogas, se estivermos dispostos a libertar nossa visão espiritual de impedimentos, seremos capazes de perceber a virtude, mesmo quando está escondida dentro do corpo.” (…)
O ESTADO DE GRAÇA
Temos aqui um exemplo da visão em profundidade. Mas para se conquistar esse tipo de visão, precisamos do auxílio da amorosidade de nossas almas. Só em estado de graça diante de qualquer coisa aparente, podemos alcançar a essência das coisas: Ver beleza no que parece feio, alegria no mundo de tristeza. Para não se confundir com “fuga à realidade”, lembramos que esse modo de olhar é traduzido pelos místicos como ver Deus em todas as coisas.
Diante de todos os impedimentos, temos a capacidade de despertar em nós esse olhar angelical. Continua Sêneca: “Mesmo tendo a pobreza como um obstáculo, mesmo onde a insignificância e a desgraça se colocam no caminho. Essa beleza será vista, por mais que esteja coberta de nódoa.”
AS MUTAÇÕES
E recorremos a outro filósofo romano em suas Meditações: Marco Aurélio, que nos diz: “Se alguma coisa externa lhe causa angústia (ou repulsa), não é a coisa em si que o perturba, mas seu julgamento a respeito. E isso você tem o poder de eliminar agora.
E Marco Aurélio completa: “Estas são as duas ideias que você deve manter em mente e avaliar. Uma é que as coisas no mundo não tocam seu espírito, e sim permanecem silenciosamente externas a ele; o que nos perturba provém apenas das opiniões dentro de nós. Em segundo lugar, tudo o que você vê muda em um instante e logo desaparecerá. Lembre-se sempre de quantas dessas mudanças você já viu. O mundo está em mutação constante; sua vida está situada em sua opinião.
SEM TEMOR ÀS MUDANÇAS
Esta chave de melhorar a opinião, o julgamento sobre você mesmo, sobre as pessoas e as coisas – por que mudou seu modo de olhar, passou a enxergar além das aparências, transformará você na pessoa que você sempre sonhou ser. Então você poderá olhar com alegria sua imagem no espelho, sem temer as mudanças.
(Máximo Ribera)

Antes de tudo, a Paz!

Não há Paz sem defesa do meio ambiente, nem ecologia sem pacificação dos homens na Terra.
Independentemente do crédito partidário ou religioso, todos nós somos células de um mesmo corpo chamado Humanidade, habitando o corpo da Mãe-Terra, que nos acolhe.
É vital, pois, participarmos livre e conscientemente do preservacionismo do ser humano e da natureza.
Nossa tarefa, hoje, se empenha nesse duplo trabalho humanista: semear a Paz e respeitar a ecologia. Quando ecologia e pacifismo se completam, temos a felicidade do gênero humano preservada.

Luiz Goulart

VALORES ESSENCIAIS

A CORRENTE DA PAZ UNIVERSAL prima, em primeiro lugar, pela mensagem espiritual que possa ser vivida por todos os seres.
Os que admitem a existência de Deus sentirão toda a beleza do Caminho contida nestas quatro palavras: DEUS, CRISTO, NATUREZA, HOMEM.
Sentimos DEUS como vibração cósmica, inteligente, presente em tudo e em todos, já que dele brota a Vida – e então tudo vive.
Tomamos o Cristo como a Luz espiritual desta vibração cósmica, como afirma João, no Evangelho:
“A vida estava Nele e a Vida era a luz dos homens… A luz resplandece nas trevas e as trevas não prevalecerão contra ela.”
A Natureza é o revestimento vibratório visível nos planos mais densos, e invisível nos planos mais sutis. Revestimento do Cristo, que percebemos, como nos diz João: “Todas as coisas foram feitas por intermédio Dele, e sem Ele nada do que foi feito se fez.”
Por fim, o homem é síntese da Natureza e guardião do Espírito Eterno – a presença do Cristo, imortal, que nele habita.

Luiz Goulart

A Magia da Prece

Numa oração destaca-se a Magia
Quando a fazemos com. total fervor.
Não são bem as palavras que dizemos,
Mas as que fala nosso interior.

Se a fé desperta em nosso Eu profundo,
Ela produz numa alma fervorosa,
A fonte divina de inspiração
Que toma a mente humana poderosa.

É prece que une nossa mente
Ao mistério que expressa o coração.
Isto se dá se esquecemos o mundo,
Pra ter o pensamento na Amplidão.

Jesus nos mostra todo seu carinho
Ao ensinar que somente isolados,
O Pai, que vive em nós como centelha,
Nos toma, pela prece, iluminados.

Daí não dar valor às ostensivas
Palavras soltas entre a multidão.
Para Ele, Deus nos ouve bem melhor
Se buscamos silêncio e solidão.

E mais ainda afirma, sabiamente,
Que Deus nos dá a nossa recompensa
Se perdoamos nós, antes da prece,
De nossos inimigos, a ofensa.

A prece, pois, pra ter grande magia,
Requer o estado místico de Amor.
Ela somente é pura quando imita
O perfume que surge duma flor.

Assim, os nossos Anjos mensageiros,
Ao ouvirem as preces que são ditas
Com fé santificante, eles as tomam
Em luzes, lá nas plagas infinitas.

Nesse instante, a magia poderosa
Da palavra se fazem divindade
Que liga o coração do ser humano
Ao coração de Deus, na Eternidade.

Luiz Goulart

Nossos Limites

Máximo Ribera
Os seres humanos nascem muito fraquinhos, parece que são as criaturas que mais precisam de ajuda, para sobreviver. Mas quando ele assume a sua consciência, sua autonomia, tenta atingir o impossível. E isso faz dele um construtor. Está sempre a modificar as coisas, a transformar o mundo, para melhor. Ergueu grandes cidades, ampliou seu tempo de vida, viajou para colher estrelas fisicamente; não conhece seu limite e não para de tentar ir além.
No entanto, em paralelo a tanta maravilha, surge de dentro dele um monstro de destruição. Tudo que ele constrói, ele mesmo destrói com guerras sem fim, vive em disputa de supremacia, de poderes de domínio uns sobre os outros.
Conheci uma senhora da roça, que falava umas coisas interessantes, por exemplo: “A criatura nasce com a condição de trazer junto seu anjo. Só que em algumas pessoas o anjo não vem. Vem o demônio.” – e acrescentava: “Mas o anjo desses vem atrás, e tem que expulsar o demônio, senão ele vai destruir tudo.”
Esta é uma figuração de nossa dualidade. Sabemos disso, pois guardamos memórias sombrias e luminosas. E quem já desenvolveu atributos superiores, como bondade, beleza e verdade, sente a ascendência do seu anjo.
Este anjo representa nossas conquistas divinas, armazenadas em nossa alma, enquanto que o demônio, nesta figuração, é a grande ignorância de nossa realidade.
Vamos citar agora uma parábola de La Fontaine, que nos lembra o quanto devemos nos preparar para grandes empreitadas:
É sobre a tartaruga, que, vendo duas aves se preparando para alçar voo, expressou sua tristeza, por não poder voar. Então as aves se ofereceram para levá-la de carona. Prepararam uma vara de madeira, seguraram cada uma numa ponta e disseram para a tartaruga morder, se agarrar com os dentes e se pendurar. Deu certo. Lá se foram os três voando por cima da cidade, enquanto as pessoas aplaudiam admiradas e dizendo frases como: “Uma tartaruga voando! Ela é muito poderosa.” De tanto ouvir os elogios, a tartaruga, toda vaidosa, resolveu falar: “Sim, sou poderosa.”
Mas nem terminou a frase e já estava toda arrebentada no chão. Esqueceu que para se manter no ar, não podia abrir a boca.
Assim, companheiros, já conhecemos nossos limites externos, materiais. É hora de iluminar o demônio, e pegar carona segura nas asas de nosso anjo.

As Divinas Virgens Mães

Presença Mística Universal
LUIZ GOULART

Na Índia, desde remotíssimos tempos, a figura feminina toma o lugar no misticismo esotérico. No Mûlaprakriti dos vedantinos surge o nome de Aditi expressando a Deusa-Mãe, que simboliza o Infinito ou a Natureza indivisível, tanto no Espaço quanto na Terra.
No referido texto sagrado, Aditi é apresentada como mãe de Âdityas, os sete deuses planetários, os quais assumem as personificações do Sol nos meses do ano, tendo por chefe Vishnu, que se manifesta fortemente na primavera.
Ainda no sentido divino e maternal, os hindus reverenciam a figura de Devakî, mãe de Krishna, cuja lenda se assemelha à da Virgem Santíssima do Cristianismo.
Dando atenção ao Egito, encontramos Ísis, a Virgem Mãe, igualmente expressando a Natureza. Misteriosamente, em termos mitológicos, aparece como filha e mãe de Osíris. Comumente, Ísis é representada com a cabeça de Íbis, ave ligada aos mistérios lunares, dos quais essa deusa é a dirigente, por sua natureza feminina.
Muitos outros povos tiveram suas divindades relativas à Virgem Mãe dos hindus e egípcios: os hebreus glorificaram Astaroth e os sírios, a Astarté. Sem falar dos gregos no culto dedicado à Afrodite; os romanos, à Vesta; os germanos, à Herta. Na Oceania, no mesmo sentido, destaca-se Ina, enquanto para os japoneses surge a figura de Isa e os chineses louvam Ching-Mu.
Não podemos esquecer Jaci, Mãe Sagrada do nosso povo tupi, simbolizada pela Lua. Nossos irmãos africanos encontram perfeita identificação de Iemanjá, Mãe das Águas, como Virgem Santíssima dos católicos. Aliás, o vocábulo Maria provém das águas, ou seja, do Mar; pois, com razão, certos autores fazem derivar o nome de Nossa Senhora do siríaco, com o significado de “princesa do mar”, enquanto outros chamam-na de “estrela do mar”.
Importa sentir e saber que o culto à Virgem-Mãe, surgido em distante passado, está presente até hoje em todo o universo do sentimento místico e filial da humanidade.

Oração do despertar

Ô minha Estrela Consoladora,
Agradeço o sono que fechou meus olhos.
Tu me guiaste em plena noite.
Confundo agora a tua voz
Com o canto da manhã.
Confio em ti que iluminas
De sol este nascer de novo dia.
Deixo o leito onde me amparaste
Para firmar meu coração
No amparo teu,
No caminho de seus passos.
Permite que eu te veja
Nos olhos puros das crianças
E no olhar cansado dos velhinhos.
Permite que eu encontre teu ensinamento
Nos corações amargos que ofendem,
Como tua delicadeza
Nas palavras de Amor que me disserem.
Confiante em ti
Descobrirei tua presença na vida.
Toma meus olhos para tua luz,
Minha boca para tua prudência,
Meu gesto para seu carinho
E meu pensamento para escrínio
De tua paz,
Ô minha Estrela Consoladora!
(Luiz Goulart)

A Ilusão da Permanência


Tudo está passando como num sonho – porque a existência nada mais é do que um sonho. Pobre de quem a toma como única realidade… Na verdade, nenhuma das coisas que julgáramos definitivas, ficaram: todas passaram.
Os seres humanos são bem o retrato dessa mudança irrevogável: não são, nem serão os mesmos de vinte anos atrás. O problema é que nos habituamos a nos ver como criaturas integrais, que jamais precisarão de mudanças: “Eu sou assim…”
Mas alguém perguntou: “E quando o céu se tornou azul, tu foste o mesmo? Quando aquele perfume de rosas te envolveu, foste o mesmo? E ainda foste o mesmo quando teu primeiro filho nasceu?” – a criatura, que se julgava um todo de permanência, baixou os olhos, pensativa…
Vivendo a Personalidade, esquecemo-nos da Essência única, que não se mistura com as múltiplas formas do baú da existência… E, no entanto, deixamos de lado o que é permanente, para estarmos em meio à mutabilidade.
Assim é a natureza humana. Poucos são os que se desligam, por um momento, de si mesmos e dos outros diariamente, para viverem esse estado superior de consciência, onde se revela o verdadeiro Ser.

(Luiz Goulart)