Sobre a Iniciação
(Baseadas na obra Diálogos Esotéricos, de Luiz Goulart)


"O Mestre Aparece"

O Homem deve transformar a estrada larga (mundo exterior) no caminho estreito (mundo interior) da Iniciação. Isto será possível quando ele encontrar a paz, que é a chave para a interiorização.

O iniciado, no conceito das antigas escolas iniciáticas, é aquele que iniciou o caminho de retorno à sua origem divina. Logo no primeiro momento descobre que a Iniciação não está nos templos de pedra, mas dentro do próprio Homem, templo do Deus vivo!

Iniciação é a síntese conseguida pela suprema yoga: a fusão do eu mortal com o eu eterno. É quando o discípulo está pronto e "o mestre aparece", para ministrar-lhe os mistérios da Sabedoria.

Entrando no Templo Interno, ver-se-á o Homem em face das duas colunas milenarmente estabelecidas: Amor e Sabedoria.

Coluna do Amor

A Coluna do Amor está associada à idéia de religião, no sentido de força coercitiva, que cria a união entre tudo que existe no Universo. No campo interno, Amor é a ligação do Homem, através do estado sublimado de sua devoção. A religião, ocultamente falando, não pode ser tomada na acepção divisionária de culto isolado a uma divindade própria do sistema místico-dogmático.

Coluna da Sabedoria

A coluna da Sabedoria expressa a plenitude da união com o Eu Superior. A este respeito a velha Índia, já há muito, enunciou conceitos que definem o estado superior do indivíduo, colocando-o acima dos domínios temporários dos conflitos racionais. Haja vista o nome de Sétimo Darzana (escola oculta de Sabedoria) que, segundo se afirma, não pode ser atingida pelos curiosos e profanos. Havendo as seis Escolas Menores da Iniciação, para quantos ainda vivam dos mitos e meramente dos rituais.

Os Guardiães

Na sétima Escola, a Sabedoria Oculta é descoberta no silêncio e no isolamento. Lastimavelmente, muito do que se deve à desvirtuação de certos ensinamentos secretos origina-se do pouco que pôde ser revelado, mesmo nas seis Escolas Menores. Os Guardiães tudo fazem e fizeram para manter os ocultos ensinamentos resguardados da cobiça e, o que é pior, do mau emprego em proveito próprio da Ciência Divina.

Críticas aos Mestres

É muito comum ouvirem-se críticas a respeito do cuidado dos Mestres em não divulgar a toda gente tudo o de que são possuidores. Esta condenação é natural, produto da infância da Humanidade. As crianças também condenam os adultos por não lhes entregarem nas mãos infantis navalhas, explosivos e mesmo objetos de valor... A necessidade de tornar oculta a divina coluna da Sabedoria é relativa ao anseio que têm os Maiores de manter intacta a integridade espiritual da pessoa humana.
Quem pode, de uma hora para outra, sem estudos básicos, compreender toda a Matemática ensinada nas escolas? Ora, se para compreender o que é próprio do limite humano necessita a criatura de aprendizado demorado, que não diríamos da Sabedoria Eterna? Principalmente sabendo-se que ela, interior e profunda, não dependerá meramente de conhecimentos adquiridos, mas sim da integral mudança interna do ser. Eis a diferença total existente entre os conhecimentos e a Sabedoria. Os primeiros não necessitam de campo moral cultivado. Já a Sabedoria, por si mesma, só germina quando o semeador se põe à disposição de seu Mestre, iluminando a terra de seu coração para guardar a Luz guiadora de seus passos.

Colunas Necessárias

A Sabedoria está acima das leis ocultas da Natureza. Aquele que a possui age como Deus no oculto das sementes, jamais esquecendo que o primeiro ato do Sábio é descobrir a semente dentro de si mesmo. Por isso, pela Sabedoria o Homem pode modificar sua própria natureza, que outra coisa não é senão aquilo que chamamos o ato da vontade. Convém notar, porém, que a Vontade de Deus no Homem sempre tende ao Amor. Impossível, portanto, viver o Homem somente a Coluna da Sabedoria, sem a presença da Coluna Amor, nos atos de sua vontade.

Respeito a Todas as Religiões

Na Coluna do Amor sentirá o homem, interiormente, que todas as religiões convergem para um único ponto: a conduta. É desta coluna que nasce a orientação mística dos homens. Por isso religiões, externamente diferentes, puderam adotar o Evangelho como código de conduta moral. Todos os que, sinceramente, vivem além dos revestimentos religiosos, atingem a Divindade. Independentemente das vestes ilusórias, a verdadeira conduta interna mostrará a todos a presença de um só Espírito. Os véus ilusórios envolvem a essência una da Religião-Sabedoria que mora no íntimo de cada religião da Terra.

Madame Blavatsky vem em nosso auxílio, quando diz:

"Este fundo comum a todas as religiões dignas deste nome se explica porque todas elas dimanam da Grande Fraternidade de Instrutores espirituais, que transmitiram aos povos e raças as Verdades fundamentais da religião, sob a forma mais apropriada às necessidades daqueles que deviam recebê-las, assim como as circunstâncias de lugar e tempo."

Religião Universal

Diante de tais palavras, deduzimos que nenhuma religião, como conduta, poderá ser desprezada, já que em todas se constata a necessidade do aprimoramento individual. Seria exigir demais que povos e civilizações, em graus tão diferentes de evolução, atingissem os pontos superiores da consciência que permitem viver o Amor, sem divisões sectárias. O chamado sectarismo nada mais é que a prisão aos limites, pela necessidade do aprimoramento pessoal. A concepção universal de religião é o último grau de conquista daqueles que fizeram de seu Templo Interno a casa da suprema Iniciação.


A Grande Escalada


Através da Iniciação o ser humano aprende a controlar seu instinto. Para isso, precisa fazer a grande escalada evolutiva, cuja síntese apresentamos aqui aos nossos leitores:

Semi-Hominais

São todos os que, embora possuídos das funções inteligentes do mental, encontram-se assoberbados pela explosão constante das paixões. Vivem sob o impacto da emotividade. A razão neles cede facilmente ao impacto do instinto ancestral do antigo bugre. Nas sociedades humanas o misto animal-hominal é o causador das grandes tragédias passionais. Sua ação destruidora vem desde as lágrimas da revolta interior até as convulsões terríveis das guerras.

Hominais

São os que tingiram o pleno poder da razão. Apesar de sua capacidade de assimilação das idéias superiores, se não se vigiam o instinto animal ainda tenta dominá-los. Mas sempre terão forças para erguer o olhar a pontos superiores da consciência. Acontecerá, por vezes, turbarem-se na marcha de seus objetivos. Possuem já o Ideal. Este será a salvação ante o abismo. Pelo Ideal tornar-se-ão vitoriosos e, acima de seus limites humanos, surpreendem por feitos gloriosos que os tornam merecedores de se confundirem com os Iluminados, pois são capazes de sacrifício por alguém ou mesmo por uma Idéia Superior. Em seu coração já existe o anseio da Paz. Homens e mulheres, anônimos ou afamados, dignificaram por seus pensamentos, palavras e ações o grau hominal a que pertenceram.

Iluminados

Iluminados são os hominais que abrem as portas d'alma às luzes do céu. São os bem-aventurados que já podem penetrar nos arcanos da Verdade. Comumente são possuídos de sentimentos profundos de bondade. Igualmente, muitos sentirão o eterno pela irradiação prateada da poesia. A Ciência igualmente visitará sua casa interior. Os Iluminados, por méritos próprios ou por inspiração, recebem mensagens superiores. A eles se deve o que de mais puro os homens da Terra possuem, como tesouro de páginas místicas ou poéticas, bem como dessas páginas indeléveis, que marcam no coração da espécie o recado do Amor e da Caridade. A civilização é a obra dos Iluminados. Nosso mundo interior está repleto das flores e luzes que eles colheram no céu da inspiração. Eles são os inspirados, por excelência. Muitos chamam-nos sensitivos ou médiuns. Esta palavra não expressa bem seu estado de consciência. O Iluminado retransmite a Luz por sua vontade própria; ilumina-se, para iluminar. Se porventura escreve, esculpe, pinta ou compõe músicas, sua mente não sofre a hipnose externa ou astral. Sua evolução lhe permite, através da intuição (ou sexto sentido), a comunhão com o mundo luminoso da Consciência Divina, ou Eu Supenor.


Iniciados

Sabemos que sempre se contou com reduzido número de seres à altura de atingir os planos divinos da Consciência. Para ser um verdadeiro Iniciado é preciso ser admitido nos Mistérios e receber a revelação da Sabedoria. Em a noite dos tempos perde-se a memória daquele que, pela primeira vez, foi considerado Iniciado. Tão velhos são os Segredos e vetustos os Mistérios da Iniciação... Em nosso tempo mesmo, embora a evolução mental tenha trazido ao campo da ciência oficial muito do que outrora fora segredo velado, a Iniciação só será conseguida pelos que se encontrem devidamente preparados. Assim como uma flor não desabrocha fora do tempo, do mesmo modo a alma terá seu momento de encontro com a Luz. Nenhum esforço, além da senda apontada pela Consciência, poderá marcar mais perfeitamente o início dos primeiros passos no Caminho. A ansiedade é má conselheira e oferece tanta resistência à evolução do discípulo quanto a displicência. De tal modo Deus fez a alma do Homem, que ela sabe que, apesar de todas as voltas e curvas do caminho humano, é seu destino retornar mais iluminada ao Reino do Pai.

Se levarmos em conta o rigorismo do vocábulo esoterismo, na acepção de oculto, somente os Iniciados poderiam chamar-se esoteristas.

Iniciados são, portanto, todos os seres que, tendo atingido os páramos supremos dos últimos graus da iluminação, ainda como seres humanos, adquirem os meios de coordenar as forças ocultas do ser. Já sabemos que a iluminação é o ponto solar que conduz o Homem aos Mistérios. Como poderia palmilhar o Caminho aquele que, primeiramente, não se iluminasse? De sua Luz brota a claridade para seu próprio Caminho. O Iniciado aprende a "levar sua própria cruz", no dizer de Jesus.


Adeptos

Os Adeptos são seres bem distintos do comum dos homens. Já dispõem mesmo de recursos místico-científicos e diferente é seu modo de vida. Transeuntes raros do caminho estreito, orientam e iluminam, do alto de sua consciência divina, quantos se encontrem na estrada larga das provações.

Adeptos são os vitoriosos que, após ultrapassarem as provas da Iniciação ("semelhante ao gume de uma espada"), tornam-se vitoriosos sobre si mesmos, através do autoconhecimento e da conquista da Coroa da Glória (de que nos fala São Paulo), após combater o bom combate (que outro não é senão a luta estabelecida entre o Anjo e o homem, o Eu Superior e o eu mortal, a Individualidade e a personalidade).

O Adepto da Sabedoria Iniciática é aquele que já se libertou de todas as amarras do instinto. É aquele que guia as rédeas ao conduzir a parte animal que ainda, por missão, sente-se obrigado a possuir no mundo. No entanto, sabe que tudo na Terra tem seu período de transição e todas as coisas ocupam tempo fixo por lei e determinado pela necessidade evolutiva. Ele conhece, mediante sua mente divina, que a atuação do Ser Supremo faz-se através do Espaço. Quando volta seus "olhos de ver" para a Imensidão, é capaz de ler no livro da Sabedoria Eterna, onde tudo fica para sempre gravado, como se fosse num eterno presente.

O Adepto é possuidor do sexto sentido. A intuição é seu modo de ver, ouvir e falar. No mais alto grau do adeptado, já se torna senhor dos três mundos: físico, anímico e espiritual. Somente nesse ponto pode e deve ser considerado Mestre de Sabedoria.


O Hierofante

Blavatsky, em Isis sem véu, se expressa, com referência ao Hierofante, dizendo que era o título pertencente aos mais elevados Adeptos, nos templos da Antiguidade: mestres e expositores dos Mistérios e os iniciadores nos grandes Mistérios finais. O Hierofante representava o Demiurgo, e explicava aos candidatos à Suprema Iniciação os vários fenômenos da Criação, que se expunham para seu ensinamento.

Kenneth R. H. Mackenzie escreveu:
"Era o único expositor das doutrinas e arcanos esotéricos (referindo-se, claramente, ao Demiurgo). Era proibido até pronunciar seu nome diante de uma pessoa não-iniciada. Residia no Oriente e levava como símbolo de sua autoridade um globo de ouro junto ao colo. Chamavam-no, também, Mistagogo.
"
Diz ainda H.P.B.:
"Em hebreu e caldeu o termo era Peter, o que abriu, o descobridor, ou revelador, e por isso o Papa, como sucessor do Hierofante dos antigos Mistérios, ocupa a cadeira pagã de São Pedro. Cada nação teve seus Mistérios e Hierofantes. Até os judeus tinham seu Peter-Tanain, o Rabino como Hillel, Akiba e outros famosos cabalistas, só a eles cabendo comunicar o misterioso conhecimento contido no Merkavah. Em tempos antigos havia na Índia um só Hierofante, mas atualmente há vários disseminados pelo país, adidos aos principais templos e a quem se conhece sob o nome de Brahmâ-ãtmans. No Tibete o Hierofante principal é o Dalay ou Taley-Lama de Lhassa. Entre as nações cristãs, unicamente as católicas conservaram seu costume 'pagão' na pessoa de seu Papa, se bem que foi desfigurada lastimavelmente a majestade e a dignidade de tão sagrado Mistério."

O Hierofante é, na Terra, o detentor da Sabedoria-Amor.

Dentre os filósofos que se manifestaram a respeito da Iniciação, Próclus nos diz que ela serve par "retirar a alma da vida material e lançá-la na luz." E Salústio afirma que "o fim da Iniciação é levar o Homem a Deus."

O Grau de Cristo

Um Cristo transcende a natureza humana e passa para uma escala divina, por isso Cristo e Sol comumente são apresentados unidos entre si, ou como um sendo sinônimo do outro.

A idéia de unificação de um Cristo com o Sol sofreu, durante algum tempo, certo esquecimento em face de um Concílio Ecumênico que vetava a astrologia Cristã. Certamente isto na tentativa de conservação dos dogmas essenciais da fé. Em espírito, porém, a noção do Cristo como estrela-maior e guia da Humanidade sempre existiu em todos os povos. O Sol foi recebido, quer no Egito, na Índia, na Grécia e mesmo entre os povos ameríndios mais evoluídos, como o manifestante do Pai, o mesmo atributo do Cristo, que humanamente foi chamado de Jesus.

Jâmblico, o filósofo neoplatônico, discípulo de Plotino, ensinava que o Sol é a imagem da inteligência divina. Platão foi mais longe: Chama-o de Ser vivente e imortal. O que não fere o texto bíblico quando lemos o Salmo XIX, 4: "Nos céus colocou um tabernáculo para o Sol."

A Vulgata, como versão dos setenta, traduz o original dizendo: "No Sol estabeleceu sua morada." E afirma ainda que "o calor dimana diretamente de Deus e não do Sol, posto que Deus sai do Sol e mora nele..."

No velho Egito o Sol era o símbolo divino por excelência e sua luz tida como o corpo visível de Deus. A alma do Sol, entre eles, era uma das formas evocativas de Osíris. Comumente, Rá personificava o Sol.

Como vemos, há uma astrologia espiritual que os antigos localizavam em linhas que demarcassem a posição dominante de um Cristo, através do Sol, seu símbolo representativo.

O Osíris egípcio, o Phebo grego, o Krishna indiano, o Sûrya vedantino, o Mitra mazdeísta e demais divindades que se antropomorfizaram ou não - desde que sejam tidas como manifestações da Divindade Eterna - sempre representaram o Sol e todas, adaptadas para a nossa linguagem, também são Cristos, como Jesus.

Constatamos assim que as festas dedicadas ao Cristo-Sol são mais antigas do que imaginamos. Evidentemente se dermos à palavra Cristo o sentido de um foco emanado do Cosmos para transformar-se num Avatar divino.