PUBLICAÇÃO ESPECIAL
EDIÇÃO NA WEB: MÁXIMO RIBERA

IN MEMORIAM

AO SAUDOSO JORNALISTA E POETA
LUIZ GOULART (1920 / 2002), CRIADOR
DA CASA DA POESIA.

 

 

VOCÊ É NOSSO CONVIDADO

 

Visite a Casa da Poesia, no auditório da Corrente da Paz, que funciona às quintas-feiras, em nossa QUINTA CULTURAL (exceto às primeiras quintas do mês).

Música, poesia e canto. É sempre um evento novo, cheio de encanto e alegria, para você curtir momentos de descontração, assistindo ótimos cantores, declamadores e instrumentistas.


QUINTA CULTURAL às 19 h, na sede da Corrente da Paz. Rua Senador Dantas, 117 - Cobertura 03 - CEP 20031-911 - Centro - Rio de Janeio-RJ - Tel.: 2240-7489 e telefax 2262-5564.

 

ENTRADA FRANCA

 

 

GRADAÇÕES DA POESIA

 

Abrimos noss página com este texto do livro CANÇÃO DO VAGAMUNDO, de Luiz Goulart:

Posso admitir três campos de atuação do Homem, no terreno da Estética:

1) Poesia e sentimento somente, sem meios de objetivação ou transmissão do indivíduo sensível. 2) Poesia, sentimento e técnica, integralizando o total necessário à objetivação do Eu-Sensível-Criador em som, cor e forma. 3) Arte dissociada da poesia, sem sentimento, incapaz de transmitir algo além do físico do objeto estético.

O primeiro plano - poesia e sentimento - caracteriza o estado místico, subjetivo do ser. Neste a poesia pode viver em sua plenitude absoluta. Pode haver um poeta-artista, sem obras objetivas. O todo contemplativo da natureza em si, ou da natureza recriada por um gênio, está neste primeiro plano.


O segundo plano é dos gênios, cuja força tridimensional abrange a harmonia ou poesia, a melodia ou sentimento e o ritmo, ou técnica. Não há uma grande obra que prescinda desses elementos, que a tornam essencial e substancial a um só tempo.

O terceiro plano é próprio dos arremedos da criatividade. Nele atuam trabalhos rítmicos, no máximo... Nada comunicam, pois lhes falta a alma caracterizada pela poesia. Dentro do mundo artístico fazem parte da arte dirigida ou arte social. Às vezes fazem lembrar princípios esposados. Jamais conduzem ao êxtase o artista, e muito menos o contemplativo.

 

Catullo da Paixão Cearense

No tempo em que o violão era repudiado pelos salões da alta sociedade, Catullo, antes de neles se apresentar, recitava um poema dedicado ao maestro Francisco Braga, do qual selecionamos estas estrofes:

Meu violão! Se te escuto as harmonias,
na atenção do silêncio, em noite bela,
numa eclosão de lágrimas benditas,
me levanto do leito... abro a janela.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Deus acende no Azul a nívea lua,
o lustre de cristal dos trovadores,
que pende lá do céu apainelado
pelos pincéis dos místicos pintores.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

A lira, em que trovaram priscos bardos,
que vencia as princesas meigas, puras,
se te ouvisse, á Violão, desmaiaria
e nunca mais tratara de aventuras.

O meigo bandolim, a doce flauta,
a viola, a planger na choça rude,
a guitarra em seus trilos cristalinos,
as profundas plangências do alaúde,

o violino, o piano, as vozes d’harpa,
o saltério, em seus trenos de piedade,
o magoado gemer de um órgão triste,
mais triste que um soluço da orfandade,

nada pode evocar tantas saudades,
de mãe, de amigo, de amante idolatrada,
como tu, quando, triste, a sós, palestras
com os mistérios da noite constelada.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Meu Violão! Esta lua está tão clara,
e este céu tão sereno e tão bonito,
que eu vejo o coração de Deus pulsando
nas artérias azues lá do infinito.

Que ela venha à janela, seminua,
para ver, nesta noite cor de prata,
como o Poeta se assemelha ao Cristo,
carregando uma cruz, em serenata.

 

VOLTA À CIDADE NATAL

Cladir Caldeira

 

 

Sol de verão a esmaecer
Na tarde que agoniza
Em nuanças brinda o horizonte
Da minha cidade natal.

Minha cidade de ruas estreitas.
As pedras irregulares do calçamento
Avivam a histórica lembrança
De um passado de escravidão.

A criançada a subir e a descer
No gradil da trepadeira cheirosa.
Junto ao peito os braços carregados de sonhos,
Antecipando o que há de vir.

Na praça a velha igreja.
Em lamentos os sinos chamam à trezena
A esperança e a fé conduzem os fiéis
Que de mãos postas rezam: “Ave-Maria”.

Na volta os passos são arroxeados de saudades...
Asas abertas, como ave rumo ao ninho,
Ando à procura da minha guarida.
Elo perdido... além do tempo...

 

PEQUENA CANTIGA DE MULHER

Marília Vernet

 

Caro senhor meu,


Amigo eleito,
Venho pedir-te
Quase suplicante:
Não faças de mim
A imagem de um sonho,
Num ideal eterno
Transformada!

Não, senhor meu,
Não me julgues
Como se fosse
Terna e pura,
Diáfana e bela,
Santa madona.

Sou apenas
Simples mulher
Que pela vida caminha
Mais com sua alma
Que com os próprios pés.

Na verdade, meus castelos
São os sonhos que semeio
Dentro de mim.
E a muralha que existe
Em torno deles,
Eu mesma as coloquei
Com meus receios,
Ansiedades e segredos.

Caro senhor meu,
Pequena e humana
Assim sou eu.
Porém,
Já comecei a cultivar
A eterna flor
Cujo perfume
Chamam de amor.

Se fores egoísta
Não me procures,
Pois este perfume
Quero espalhar
A ti e a mais alguém,
Em toda parte,
Além...

Se me aceitares assim,
Ainda tão errada,
Dá-me teu coração
E a caminhada
Será sem tempo,
Sem barreiras ou lugar.

E terás, senhor meu,
Mesmo distante,
Nas lutas dos teus dias,
Nas batalhas dos instantes
O meu pensamento constante
E pleno o meu coração...

 

BEM-AVENTURADOS

José Enokibara

 

Bem-aventurados
Os bem-humorados
Porque conhecem a alegria
Da eterna juventude

Bem-aventurados
Os gratos
São os felizes
Mais felizes

 

Bem-aventurados
Os simpáticos
Porque inspiram bons sentimentos

Bem-aventurados
Os que respeitam a vida
Trazendo mais vida
À vida de todos

Bem-aventurados
Os enamorados
Porque vêem Deus
Na presença amada

 

LAÇOS

Gisela

 

O umbigo é cortado no parto,
mas só materialmente.
O laço foi bem dado por Deus
e não se desfaz nunca mais...
Primeiro a tentativa de adivinhar
o que há de errado,
onde dói?
E as dorezinhas do bebê
começam a doer na gente...
Os primeiros dias na escola
apertam nosso coração
com dúvidas e medos
e o soar das campainhas
aperta os laços cada vez mais...
A torcida para que sejam sempre os primeiros
nas provas, nos jogos, na vida
e no começo de uma nova era
o temor que o mundo lá fora
desfaça o laço.
São protagonistas permanentes nos nossos sonhos
e somos guerreiros de frente na luta deles!
Laços de amor, laços de sangue
laços azuis ou cor-de-rosa...
Laços que um dia se multiplicam
e apertam tanto que parecem nós!

 

GAIVOTA

Nita Pasini

 

Gaivota!
És perfeita quando voas
Rasante as asas estendidas sobre os mares
Passas devagar cortando com pureza os céus.
O teu grito, parece que carrega uma saudade.
Talvez recordes outras pátrias,
Outras eras, outras pedras, outros mares,
Mas nas linhas transparentes de tuas asas
Cantam acordes de leveza breve
Quando livre vagueias pelo azul.
Ao te ver assim em liberdade
Sinto-me
pequena, limitada,
Ao cárcere do corpo aprisionada
E tenho ânsias de partir pela amplidão.
Ah! Se eu pudesse voar com tuas asas
Plagas distantes então visitaria
Na curva azul do céu me perderia
Entoando meu canto de saudade.
E longe das tristezas desta terra
Pelos espaços da manhã marinha
As fronteiras do mundo atravessando
Mais uma gaivota contaria
E entre todas a mais feliz seria.

 

À MÃE

Luiz Goulart

 

Não há nenhuma gratidão
Que possa superar
A que um filho mantém por sua mãe,
Pois ela lhe deu o coração
Que pulsa o sinal de sua vida.
Seja ela uma mulher honesta e pura,
Ou dita pelo mundo decaída,
Ao filho cabe vê-la dentro d’alma,
De qualquer forma, como a divindade
Que, no milagre da concepção,
Doou-lhe a possibilidade
De redimir-se na reencarnação.
E mais ainda, cabe-nos dizer:
Toda mulher é casta ao dar à luz.
Ela se aureola sempre de beleza
E faz-se irmã da Lua e das Estrelas,
Cumprindo sobre a terra
A lei de outra mãe: A Natureza.

Jamais se eleve a voz do filho ingrato,
Pois sua própria boca a mãe gerou.
Nem contra ela cometa um desacato.
É desgraça ferir a quem nos ama
E mais ainda aquela que um dia,
Na hora sagrada em que nascemos,
Ao apertar a nossa cabecinha
À flor do leite branco de poesia,
Disse, chorando de emoção:
– Como te adoro, minha criancinha!

É bom nunca esquecer
Que, por mais que se arraste o coração
Em divisões de “amores” nos caminhos,
O filho há de ofertar até morrer,
À sua mãe, a flor da gratidão
Cultuada no templo do respeito
Que só os nobres d’alma
Guardam velado no seu peito.

 

GRATIDÃO
Paulo Benjamin


SAÍ DAS SOMBRAS
Máximo Ribera

Quando o dia chega,
Recolho meus pensamentos
Para o ofício interior da gratidão.

E não posso deixaer de sentir
O calor da vida
Que vem com o sol
E aquece cada coração.

Embora seja importante
Tudo o que tenho
E o que recebo a cada instante,
Penso que nada há de mais valor
Que ver tudo o que nos cerca
Sempre com muito amor.

Há os que nos ofendem
E os que acariciam também.

Mas, em tudo um só recado:
Deus ensina como lhe convém.

Este hábito de tudo agradecer,
E das flores apenas o perfume colher
Tenho comigo a cada momento.

Por isso agradeço agora
Esta luz que brilha em teu pensamento.
Ela é mais forte
Que a maior estrela
De todo o firmamento.

Saí das sombras, almas guerreiras,
Encapuzadas nos elmos
De aflitivas dores!

Vinde caminhar à luz do dia,
Expor ao Sol os despojos
Do coração ferido.

Vereis, como eu vi,
Que nas sombras
Os monstros da impiedade proliferam,
Serpenteando para longe a esperança.

Com um raio de amor,
Desintegrai o metal guerreiro.
Com as honrarias e humilhações,
Fazei uma ponte para chegar à paz.

E trocai vossas espadas
Pelos brancos lírios,
Pelas rosas carmesins...


O VINHO DE HEBE

Raymundo Corrêa

 


Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia...

A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia...

E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa...
Passa, e não torna atrás o seu caminho.

Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios,
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.